sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre a realidade.

A paranóia recorrente difunde qualquer registo que possa ser considerado real ou próximo disso. Entre reconhecer a realidade e conseguir viver nela vai uma grande distância.

Os pensamentos são complicados
A realidade é um extracto de sódio
Se fosse um frasco de potássio, bebia-a.

Há uma vasta diferença
Entre compreender a realidade
E distingui-la da criação

Vozes chamam-me
E distorcem o caminho
Ainda que as vozes sejam fáceis
De reconhecer
É difícil afastá-las
Ou ignorá-las
Elas chamam-nos de novo

Os pensamentos sobrepostos
Os pensamentos multiplicados
Com vozes que falam todas ao mesmo tempo

A realidade é um pedaço quebrado
E que a pense quem pode
A viva quem consegue.

Há determinadas coisas que só conseguimos
Compreender, se as vivermos
Há muitas coisas que nos parecem distantes
Do palpável porque nunca as vivemos

Nalgumas cabeças
Poderíamos distinguir
Realidade de Paranóia



As vozes parecem chamamentos
As vozes.
As vozes não são a realidade percepcionada
As vozes são outra dimensão da realidade do sujeito
E reconhecê-las, ignorando-as
É tarefa árdua

A realidade é um pedaço distante
A realidade é introspecção
Seguida de momentos de euforia
A realidade é difícil de escrever sem a sentir

As emoções são coisas dos mortais
Os mortais não escrevem, vivem
Podemos separar pessoas de outras pessoas
Podemos compreender a realidade: sempre a nossa
A dos outros não as vivemos
Mesmo quem representa nunca saberá porque não a vive

A realidade depende das vivências,
Da construção do sujeito
Dos inputs e outputs
Inerentes ao sujeito
A realidade é um pedaço excessivamente
Subjectivo

Podemos distinguir realidade comum
De realidade subjectiva
Entre a realidade comum está o mundo tangível
Ainda que este dependa da percepção do sujeito
Podemos distinguir o mundo físico
Do mundo inteligível
Associando a este segundo o mundo criado pelo sujeito
Com a sua organização ou falta dela.

Não creio que determinadas formações mentais sejam melhores que outras
Acredito que há algumas mais saudáveis que outras
Algumas pessoas conseguem integrar-se melhor que outras
Algumas pessoas conseguem viver, silenciado as emoções
Outras não conseguem, são vitimas da guerra interior
Vitimas das vozes, vitimas da desorganização mental

Reconhecer o que podemos denominar de problema
É diferente de ter capacidade para o dominar
Assim se explica que muitas pessoas consigam ver
Mas não saibam viver
Seria mais fácil não conseguir ver
E saber viver

Falando dalguns assuntos
Poderão parecer estranhos a quem não os vive
E compreende-se porque a pessoa para saber o que é,
Tem que viver
Não podemos pedir a um chinês para comer com garfo
Se ele nunca soube o que era um garfo

O mapeamento mental depende da formação do sujeito
O mapeamento mental depende da estruturação mental do sujeito
Que está contida nas vivências e na organização estrutural relativa ao meio em que vive
Se distinguir-mos o meio e o sujeito como duas peças que se moldam
À medida que a realidade avança
Podemos distinguir vários tempos: o tempo do sujeito
E o tempo da realidade
Como se houvesse uma realidade contínua
E a uma realidade que se vive
Onde os tempos dependem sempre de outros sujeitos
Temos o tempo que avança sozinho
E os diversos tempos dos diferentes sujeitos
Que muito raramente se encontram

Os humanos têm que lidar com muitas coisas
E uma pequena peça fora do sítio pode conduzir
A loucuras difíceis de controlar
Pode conduzir e fazer aparecerem vozes na cabeça
Reconhecê-las é o primeiro passo
Ainda que na maior parte dos casos pouco ajude.

Então a realidade não é um ponto
É um processo
De multiplicidade
De múltiplos sujeitos combinatórios
De múltiplas vidas simultâneas
De temos combinados
De raízes quadradas e mapas mentais
De conceitos
E de pensamentos
O sujeito tem que ser o próprio a distinguir e a saber viver na realidade

Compreender a realidade é diferente de saber viver nela, é preciso treino
É preciso adaptação
É preciso capacidade
O tempo combina-se como
Chamas acesas que podem apagar-se com um sopro

Que viva a realidade o sujeito
Que falem os homens sobre outros homens
Como se fossem deuses,
Pena que esses homens que se acham deuses
Nunca o cheguem a ser
Porque estão tão presos no seu próprio mundo
Que não são capazes de compreender
O que é a verdadeira realidade
Compreendem a sua apenas

A realidade é um pedaço distorcido
É um pedaço que pode ou não ser vivido
A realidade é qualquer coisa.
A realidade é diferente de um para todos
Do todo para a parte
Podemos associar a realidade à
Necessidade de a justificar ou a realidade palpável
A realidade é um pedaço apenas
E tem as duas facetas: palpável e não palpável
A realidade do todo, a realidade da parte
E a combinação de todos estes factores
Apresenta-nos a realidade,
Oferece-nos a verdadeira noção de realidade
Poucos conseguirão percepcionar a realidade
Porque é urgente que a vivam para a saberem

Se a viverem não a saberão
Se a souberem não a conseguem viver
É preciso dosear o conhecimento da realidade
Da necessidade de a viver
Podemos encontrar-nos em múltiplas teorias religiosas
Ou filosóficas. Podemos viver com a crença infindável em mundos justificados
É uma questão de opção
Ou podemos conhecer o mundo
E tornar-nos, à medida que vamos conhecendo mais,
Menos capazes de o vivermos
Porque todas as teorias podem estar certas
Todas as teorias podem estar erradas
E surge assim a necessidade de acreditar
Em algo externo ao sujeito singular
Para assegurar a crença comum numa determinada justificação
E vivem assim distantes da realidade
Vivem distantes do mundo real
Porque as crenças asseguram a continuidade de uma vida normal
A ausência de crenças torna o sujeito incapaz de viver a realidade
A realidade presente e a realidade ausente
São distantes e podem ser vividas

A realidade vive da subjectividade
E vice-versa.

A realidade não se deve conhecer, deve viver-se.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Rotina

A criação é hiperbolicamente uma doença que os meus olhos transportam. Escrever sobre o amor é uma doença congénita, escrever sobre qualquer coisa é uma tortura, uma agradável dor.
As horas passam, o relógio está do avesso, o dia anda ao contrário, a rotina desrespeita a rotina, a hora de dormir é a hora que, outrora, seria a de acordar, a hora de acordar é a hora que supostamente deveria ser a de lanchar. O relógio está do avesso, os ponteiros não andam ao contrário, simplesmente não respeitam o normal andamento das coisas. Poderia assumir, de forma incontrolada, que esta é também uma rotina e que dizer que quem o faz não segue uma rotina, é um atentado à palavra rotina, uma vez que, a pessoa apenas está a seguir uma rotina diferente e a desrespeitar a rotina comum.
A normalidade das coisas é um atentado à própria palavra. Creio não haver palavra mais ambígua que normalidade. A normalidade pode ser fazer as coisas bem feitas estando fora da regra, o que a psicologia denomina como "Conduta desviante". O sucesso não está presente na nossa capacidade de corresponder à regra, à norma ou ao comum, o sucesso assume-se pela capacidade que temos de respeitar a nossa própria identidade, fazendo essa parte ou não da "regra", estando baseada em princípios moralmente ou eticamente correctos ou não.
Seria simplista fazer a realidade girar em torno de um Eu que se divide em múltiplos Eu, sem respeitar uma norma ou estabelecer princípios comuns. Apenas creio que não há uma regra melhor que outra ou até mesmo melhor que a ausência de regra. Acho que a necessidade de regras, de corresponder ou não à normalidade, apenas diz respeito ao sujeito e aqui se põe a maior dificuldade, que é a de que o sujeito tenha a capacidade de se conhecer a si próprio ao ponto de saber se deve ou não estar dentro da regra para Ser ele mesmo, para se poder ele próprio se considerar Indivíduo, Sujeito, Pessoa ou Ser.
Viver é fácil, saber viver não é assim tão fácil. Saber viver é apenas saber viver.

Os meus olhos podem até querer fechar, mas, se eu quiser que eles se mantenham abertos, vou continuar a exigir por eles, porque em mim mando eu. Ter consciência dos riscos e arriscar não é loucura, é sabedoria.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Tempo

As margens foram passadas por todos os transeuntes, as fadas voaram tão longe como o solilóquio. As passagens intempestivas são tempestades de quem passa fome, de quem sabe que as palavras estão esfomeadas. Voam bem longe os loucos, voam bem alto os desertos que se descobrem em palavras vãs.
De quem vai sugando os antecessores para alcançar a balança mesmo antes de chegar a pisar o primeiro degrau. De quem sabe bem que vai pisar o primeiro degrau.
Voam bem longe os loucos, beijam bem perto os desertos. Nos lábios carnudos, nos lábios cinzentos de quem dizes que o tempo é um pretexto. O tempo sou eu e és tu.

domingo, 20 de maio de 2012

Eu


Não é preciso ser muito inteligente para se dizer o que quer que seja. É simplesmente útil ser-se ignorante. Porque para quem sabe e sofre, nada precisará de saber, haverá somente de se continuar a sentir inútil e sozinho porque sabe, sabe que nada sabe. Nem sempre quem diz alguma coisa, atrai multidões pela sua capacidade de persuasão, sabe efetivamente alguma coisa. Admiro solenemente quem sabe alguma coisa, pois eu ainda estou à procura das que sei.
Não tenho completa nem incompleta certeza nenhuma, reservo-me somente todas as incertezas do mundo. Se tiver que ser ignorante, que o seja, pois não vou querer saber nada.
Posso até cair no ridículo de mim mesmo, de escrever de forma rude e calão, de parecer abraçar movimentos vanguardistas mas eu serei sempre uma indefinição que parece, por vezes, fácil de definir. Gosto de ouvir os outros a falar, porque os construo e construí-los é escutá-los. Posso ouvi-los, senti-los, tocá-los, virar o odor de todos eles como páginas gastas da mesma história. Posso rever o texto uma centena de vezes até o publicar, mas tenho a certeza absoluta de que aquilo que quis escrever em primeira instância foi o que quis dizer.
A única correção a que procedo é a da sintaxe própria, quando me desrespeito para dizer o que quer que seja, volto atrás e digo-me de novo. Não tenho nenhuns pensamentos políticos, partidários ou poéticos. Tenho-me a mim e é tudo o que eu posso ter.
Poderia justificar a essência das palavras, mas justificá-la seria anular-lhe a essência. Há um poder e esse poder é como um grito mudo,  que sai pelo peito em voz alta, sem nunca chegar a produzir-se som. O som é um fragmento, a continuação da existência.
Poderia saber sorrir e dizer a toda a gente o que sinto, o que penso, o que faço e nunca deixaria de ser eu mesmo. Porque ser eu é cair no ridículo de parecer egocêntrico e falar sobre mim. As palavras têm esta dose horripilante de dissabores que nos sabem bem. Têm esta capacidade de nos fazer sentir o que o poeta sente. Sonhadores daqueles que se alimentam da vida dos poetas para lhes dar continuidade, querendo justificar o que viveu o poeta. Esses! Esses! Esses! Esses não são poetas, são estudantes. Porque a um poeta cabe respeitar os outros poetas, cabe viver com os outros poetas, sem nunca tentar dissecar a vida de um poeta. Dissecar a vida de um poeta é um atentado, um desrespeito maior pelo absoluto da criação. Quem cria, quem sente, quem sabe, quem é poeta, não tenta justificar o que fazem os poetas, vive-o. Não tenta saber o que o antepassado poético viveu, continua-o, sente-o e é tudo. Não destrói poetas por sonhos maiores de querer ser alguma coisa. Quem é poeta, ama os poetas, nãos os dizima, dissecando-os por ser obcecado por eles. Vive com eles.
A um poeta, cabe somente ser poeta.
Quanto a mim, sou apenas eu e nunca fui poeta. Podem não gostar de mim ou amar-me, mas eu sou eu e haverei de continuar a ser fruto de mim mesmo. Sabendo sempre quem sou, aparentado estar perdido em caminhos absurdos e de eterna loucura. Caberão todos os juízos de valor, todas as feridas, todos os amores e dissabores, toda a mágoa, toda a alegria, caberá tudo e no fim de contas o resultado será sempre igual ao produto final: eu mesmo.
As pessoas passam e ondeiam na minha vida, muitas descobrem que pouco mais há a saber e que a ideia do mistério, não passa de uma ideia de mistério, pois não há mistério nenhum. Só me há a mim. A mim, que sou eu mesmo.  
Doses doces de mim. Doses doces de nós. Doses doces de inspiração roubada ao que vou vivendo, uma apropriação descomplexada do património do meu ser. Roubando-me a sintaxe, plagiando-me enquanto ser que existe. Eu sou apenas eu. Haverei de continuar a ser eu.
E para que no final não restem dúvidas, eu sou eu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Oração do Poeta

Gato morre cão
Pássaro morre sapo
Homem morre não
Humano vive não
Poema sabe sim
Poema soube não

A luz da minha aldeia
Sabe a dores de garganta
Os olhos fecham abertos
As aldeias morrem naturais
Os poemas são surreais
Que vivam os Pais

Os pássaros estão loucos
Cantam às quatro da manhã
Ainda não é manhã
Estou louco, bêbedo
E ainda não álcool
Estou embebido pelos meus olhos
Que de lágrimas se cuidam
Em poemas descuidados
De verdades doentes
Este é o poema
Este é o poema

Que se levante o Aleixo
E não parta o queixo
Com as coisas que vos deixo
Passe a Pessoa
E vos deixe à toa
Como o rebanho do Caeiro
Que queria cagar
E não tinha como limpar o cagueiro

O Bocage é o Rei
Pena não ser Gay
O A-berto ia gostar
O Sá-Carneiro a cagar
Com um cu por limpar
Deve ao Fernando
A poesia de quem vai andando

Não escrevo mais nenhum poema
Porque sou uma fonte de inspiração
E para isso liguem a televisão

Já pensei em escrever sobre o leitor ignorante
Mas esse já não iria avante
Porque uns escrevem Rap
Outros vão às festas da FAP
Acabam todos fodidos
Todos vomitados

Irrita-me o leitor ignorante
Porque se acha digno e relevante
Com desconhecimento da criação
Acha que a cultura é como a tesão
Assiste a todos
Como a Simone de vai-a-voar
E o Sartre fica a olhar
Ainda acabo por ser eu que a vou papar

Na minha rua
É como na minha faculdade
Se não cabe na tua
Cabe na dela

Façam orgias
Bebam absinto
Sejam poetas
Preparem as cornetas
Dispam as cuecas
Comam as velhotas
Vão para as docas
Batam as latas
Fodam as letras
Matem as vacas

O único poeta sou eu
E quem achar que não
Que se lembre que o maior poema é o meu
Há quantos anos estava à minha espera»

Se escrevo calão
É para que o leitor burro largue a televisão
E me leia como oração:
Ajoelhe lentamente
E se lembre que sou gente
Que sabe o que diz
Escreve e pensa

Não morro poeta não!

domingo, 13 de maio de 2012

Está tudo bem

Está tudo bem
O pior já passou
A memória é traiçoeira

As pessoas invejam a tua beleza
Invejam o teu sucesso
Está tudo bem, estou aqui

Vou estar aqui, está tudo bem
Vem, vem, vem

É difícil perceberes quem te quer bem,
Estou aqui!

A novidade é interessante
Tens vinte números novos no telemóvel,
Não sabes de quem são

Agarraste duzentas pessoas,
Não as conheces

Eu posso fazer melhor,
Estou aqui

Está tudo bem
Podes ouvir
Não há nada
Eu levo-te à saída
Estou aqui
Está tudo bem

Estou aqui
Fecha os olhos
Está tudo bem
O resto não passou de um sonho mau

Estou aqui

Paz.

As pessoas estão na rua
As pessoas estão aos saltos

A noite entra pela janela
Do meu quarto,
As memórias do passado começam a surgir
Intempestivamente;

Cores, muitas cores
Pessoas, muitas pessoas
Muitas pessoas
Muitas pessoas

A noite corre demasiado depressa
A única lembrança é a do acordar

Está bom tempo
É madrugada
Os pássaros às cinco da manhã começam a encantar

Restam as memórias
Os momentos para contar histórias

As pessoas são bonitas
Apetece-me abraçar toda a gente



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Solidão.

As pessoas passam despercebidas
Na rua ninguém sabe quem são
As pessoas estão carentes
As pessoas eram contentes

Sozinhas, livres, leves, vazias,
Sozinhas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Abismo

Ao longe uma parede, um tiro certeiro que vai em direcção ao escuro, o vago é agora a certeza absoluta de um espaço melhor para se viver.

Uma bailarina caminha em direcção a um espelho. O espelho é banhado a ouro, um espelho é diferente dos outros espelhos.
O espelho está a cerca de trinta centímetros. A bailarina desmaia. Fica a sensação de que o espelho não sabe o que fazer. Sobressaltado, decide atirar-se para cima da bailarina e desmaiar também.

Descrição holística  

A bailarina tinha dezassete anos de idade, duas irmãs, vivia nos arredores de Veneza, trabalhava durante o dia numa Academia, era boa aluna, os Pais haviam falecido num acidente de carro, morava com os tios, gostava de flores, dançava para se esquecer do desgosto de ter perdido dos pais.
A mãe tinha sido bailarina profissional. Para ter a mãe presente na vida dela, usava um colar de pérolas que a bisavó ofereceu à mãe antes de morrer. A mãe gostava de cavalos, de música clássica e de balé, nos tempos livres pintava quadros, ouvia Vivaldi, dançava balé. 

Eram seis da manhã, o sol começava a abrir brechas luminosas nas ranhuras da janela do quarto de Elisa, Sofia e Raquel.

(...)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dispersão

Estou doente de amores
Estou louco e ciente
Estou consciente
Estou cheio de lamurias e louvores

A espada penetra-me a face esquerda do coração
O tempo é linear
O espaço é ar
Fecho um poema ao pensar

Estou louco e doente de amores
Pela consciência de mim mesmo
Que tenho ao saber quem sou
Estou eu, estou tu, estou nada
Estou tudo, tudo e no fim não sou nada

Estou eu, estás tu, nós e nunca foi mais nada.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Uma questão de estilo

Estilo do vira
Estilo do pinote
Estilo do pequenote
Estilo do chicote

Estilo da lata
Esquilo das latas
Esquilo sem patas
Poemas sem facas
Poemas sem poesia
Melancolia
Devaneio
Chovem estrelas
Palavras
Poemas
Palavras
Poemas
Palavras
Emoção
Sensação
Emoção
Emoção
Emoção
Emoção

João
Poema
Meu
Irmão
Teu
DELES
nosso

DOS OUTROS
DOS MEUS
DOS TEUS


DOS QUE SÃO NOSSOS

POEMAS

TEUS
MEUS

MEUS E TEUS

E TEUS E MEUS


E MEUS E TEUS E TEUS E MEUS E TEUS E MEUS E MEUS E TEUS


E pratos e latas e gatos e gatas e latas e gatas e patas e facas

Que são poemas e latas.

Curva rectilínea

Um cão.
Um cão. Matou-se. Morrido. Estava morto.
Saltou. Um cão. Saltou-se. Estava solto.
Levantou. Levantou-se. Um cão. Estava em pé.
Sentou. Sentou-se. Estava cão.

Um gato.
Um gato. Matou-se. Morrido. Estava morto.
Salto. Um gato. Saltou-se. Estava solto.
Levantou. Levantou-se. Um gato. Estava em pé.
Sentou. Sentou-se. Estava gato.

Uma gravata.
Uma gravata. Matou-se. Morrido. Estava morta.
Salto. Uma grava. Saltou-se. Estava solta.
Levantou. Levantou-se. Uma gravata. Estava em pé.
Sentou. Sentou-se. Estava gravata.

Um poema.
Um poema. Matou-se. Morrido. Estava morto.
Salto. Um poema. Saltou-se. Estava solto.
Levantou. Levantou-se. Um poema. Estava em pé.
Sentou. Sentou-se. Estava poema.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Chega.

Os sentimentos são lentos. Corre na fonte uma brisa leve, de quem pensa, de quem sente e sabe alguma coisa. Levemente sussurram gritos mudos, vozes que se quebram na obliquidade do pensamento. Muitas das pessoas que falam, falam sem conhecimento de causa.

O pensamento, voa leve, é simples. As pessoas vão, ficam, voltam. Vão e ficam, nunca chegam a estar. A densidade da informação faz com que seja complicado distinguir quem está e as verdadeiras intenções de quem quer estar. Filtro e espero que bem, os indícios de quem quer estar.

A solidão é íngreme e apercebo-me que o cuco se deixa observar com demasiada facilidade, se encanta e ilumina por um brilho demasiado cintilante. Os erros não são erros, são ingenuidade. As pessoas não são nada.  É apenas mediocridade de quem julga e não quer ser julgado.

A solidão é uma paz. A solidão nalguns dias é triste... noutros é alegre.

As vozes são surreais. Não quero conhecer mais ninguém. Chega!

quinta-feira, 29 de março de 2012

O meu nome é um boato.

O amor é um traço teu quando está nas minhas mãos, juntos desenhamos a eternidade, juramos mentiras para poder sorrir na rua como se nos tivéssemos acabado de conhecer. Os teus olhos desfazem-se como aguarelas na paisagem, a tua voz diz-me que me amas, os teus olhos mentem-me.
Passeamos juntos e de mãos dadas, porque eu sei que tu finges não saber nada de mim, não saber quem eu sou porque queres continuar a estar lá, continuar a saber de mim, continuar comigo como se nunca tivesses sabido quem eu sou. As palavras têm o poder de nos fazer viajar sem nunca sair daquele espaço tão terreno onde estamos, são viagens que se fazem sem nunca chegar a viajar.
As pessoas são letais, a dor de ter que olhar para elas é somente dor, dor que eu sinto e que finjo não sentir para poder estar ali a olhar e a falar, finjo não saber, finjo e finjo porque a ignorância é sinónimo de felicidade, mas eu não consigo ser feliz a fingir-me ignorante. Gostava de poder ser ignorante. Gostava de poder não saber nada sobre o que se passa à minha volta.
Gostava de te ter lá todos os dias, de te ter a olhar para mim e de olhar para ti, mais feio, menos bonito, o mais bonito, o melhor, por vezes desfeito na paisagem. Dói-me ser sensível, a sensibilidade dói-me. Dói-me que olhem para mim como se eu estivesse num pedestal e me tentem tirar de lá por achar que é demasiado calmo.

Construo mundo e emerjo da vontade de saber alguma coisa deles, dói-me não poder estar lá, não poder ser eu, ter que lutar contra mim e contra os outros, imagino-me num filme de Aronofsky, hoje sou uma personagem. Faz-me confusão que as pessoas vão passando e sabendo o meu nome, mas nenhuma se digna a ficar para sempre. Faz-me confusão que tentem mudar, que me tentem fazer sair do meu mundo, que me queiram tirar do sítio confortável onde estou, só pelo prazer de me verem cair, de me verem ser inferior, é nesse preciso momento que me ergo e mostro que continuo vivo. As pessoas continuam a saber o meu nome nas ruas, vou fazendo pequenas diferenças, o meu nome é interessante de se saber, finjo que não sei que falam de mim, que não comentam a minha vida, que não me enganam, porque nesses momentos eu levanto-me e sei o meu o nome, o meu nome é somente o meu nome, o que dizem dele, são palavras em poder. Nesse momento penso e, por um lado, fico grato por falarem tanto de mim, por saberem tanto da minha vida, por me tratarem como se fosse um desconhecido que conhecem, por inventarem a minha vida, por fingirem estar comigo, levanto-me e continuo a saber o meu nome, continuo a saber que amanhã vou chegar onde quero, que o meu nome vai rasgar as páginas de história, vai marcar a literatura e que nunca precisei de fazer nada que não quisesse. Eu não vim para este mundo para constituir família, para agradar a ninguém, para fazer o que toda a gente faz. Eu vim aqui para mudar o mundo, faço-o todos os dias, desde o dia em que escrevi o meu primeiro texto, assinado estranhamente aos doze anos. As pessoas veneram a fama, o poder e a glória e ainda não compreenderam que eu finjo ser mais vulnerável que o que eu sou, mais burro que o que sou. Ainda não perceberam que não sou burro todos os dias e vou sendo generoso, porque sou assim, sei que, por cada rasteira que preguem, eu vou estar a passar como se não se tivesse passado nada e vou continuar a ser eu.

Há dias em que me sinto destruído, sinto-me ofuscado, sinto-me estúpido e não compreendo o que é que se passa, quando passo na rua e vou a estender a mão a pessoas que conheço e fingem não me conhecer, não consigo compreender algumas atitudes, nesse momento olho para o chão e penso "foda-se", como é possível eu ter acreditado que está pessoa podia ser minha amiga? Como é possível eu ter dado tanto crédito a esta pessoa ao ponto de me humilhar a estender-lhe a mão e agora ela me estar a cuspir a cara. 

Por vezes vou mostrando quem sou, o que penso, o que acredito, vou fingindo não ser ninguém, vou fingindo não estar aqui e no momento em que menos se espera, essa pessoa passa na rua e vem ter comigo, já se lembrou de mim outra vez... desta vez porque precisava de mim.

terça-feira, 13 de março de 2012

ai

Estou tão cansado. A minha voz é infame, volátil e estática. Sou um sólido. Naquele dia não sabia mais o que dizer, a sensibilidade deixou de ser sensível. O meu âmago suportou o dever de ter que existir.
Estava tão cansado e fechei os olhos por não saber berrar mais nenhum nome. Por não saber cantar mais nada.
Agora as lágrimas. Agora as lágrimas. Agora as lágrimas. Há uma vasta complexidade em definir o carácter ambíguo da doença de ter que existir. Morri. Estou morto.
Preciso de ti. Preciso tanto de ti.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A depressão é uma proporção da lucidez. Fechei os olhos. Abri. Fechei de novo. Começava a passar o tempo, o tempo não passava. Estava cansado. Estou cansado. Só quero o teu nome. Quero berrar em palavras mudas.
O teu nome é.... é... é.... estou cansado.
Esqueci-me de quem és. Esqueci-me de quem és. Esqueci-me de quem és.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

As paredes são areia movediça, os meus desejos são o absurdo, as minhas barreiras são todos os medos do mundo. A segurança é para os fracos. Saltei de cabeça.
Vou tomar banho. Fazes-me falta.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sinto uma dor e choro


Rasguei o teu ventre com palavras gastas.
O sono cessou a vontade de dormir,
Expressão é uma indulgência
Demência

Dói-me a racionalidade
Sinto no pré-frontal
Toda a cultura pelos
Erros cartesianos

Arranjo estético
Dois cumprimentos
Pela falta de ética
Estou vencido pelo cansaço
Estou vencido pela falta.

Estou cansado.
Estou cansado.

Os meus olhos morreram naquele momento
As palavras foram gastas
Estou cansado.
Estou cansado.

Pudesse eu compreender
Todas as coisas do mundo
Sem ter que as sentir
Pudesse eu deitar-me à beira-mar
E ver o vento com o tacto


Expresso tudo o que está para haver
Entre mim e o absurdo
Para não ser nada
Ninguém
Nem coisa nenhuma

Matar todos os chocolates
Com a carência
Matar todas as carências
Com água e da benta

Acordar dois dias depois e já não sentir nada

Ter dificuldade em compreender o normal andamento das coisas
Porque sinto e sentir de forma hiperbólica
É uma patologia condenável e um acto insaciável
Morro naquele momento em que já não sei o que dizer.

Dois beijos soltam-se e morro,
Porque quero ter. Abrigo-me da chuva
Não que tenha medo
Mas gosto de evitar os riscos
Não por cobardia
Mas por negligência

Remeto para o Futuro porque o Futuro é sempre mais fácil
Quero todos os momentos do mundo.

Quero acordar e ter do meu lado,
A caixa de música com uma bailarina
Tocar e entrar na caixa

Não pela banalidade ou acto carnal
Porque de prazeres físicos está o mundo cheio

Eu quero ter um porto, estacionar
Abrigar-me. E saber que as minhas palavras não são laivos,
Vícios ou banalidades
Rapo em mim todos os movimentos do mundo.

As lágrimas que estão para caiar,
Os dias que estão para vir.

Uma sensibilidade de quem quer dormir e não pode
Porque pensar demasiado é anormal,
Mas... um dia...; quando eu for poeta,
Saberão o meu nome
E serão rasgadas páginas com o meu nome
Haverá um louco que me tente interpretar
E ainda mais, o louco que me queira compreender.

O consumo é coisa mundana e doente.
A boémia é coisa dos poetas,
Por isso é que nunca fui poeta.

Dói-me tudo por poder pensar e não chegar a pensar em nada.
Dói-me tudo por dentro.
Um poema que penso
São dias resguardado no teu abraço

Beijar, bocejar, querer, poder.
Jogos de cintura; Não faz parte de mim!
Não querer e quando não valorizo tenho.
Que todas as mulheres se cansem do meu nome
Que a única que amo foi a que me deu o ventre para eu nascer
Poderá ser fatalista, ser um devaneio,
Ser o que for.

Podem passar dois dias em arranjos poéticos,
Uma métrica de descargas emocionais
Podem passar três meses,
Podem chorar três nadas
E eu o único que quero é uma casa,
Rio e plenitude,
Irei retirar-me de tudo o que for dos mortais

Eu só quero poder ter,
Nunca fui de possuir
Mas gosto da certeza de me poder sentir inteiramente
Parte integrante dalguém que existe
E posso tocar, olhar, sentir
Mais que beijar, possuir e expelir
Mais que qualquer tipo de sexo ou vontade
Porque as tenho mas eu não quero isso.

Se eu soubesse quem sou,
Talvez fosse menos Fernando e mais Pessoa.

Se eu soubesse criar,
Fosse mais certeza e menos insegurança.

Cai um prato em ovos moles
O meu corpo é um doce de limão,
O meu corpo é um pedaço de chá
O meu corpo é a tua voz que se divide
Pela amargura da minha

Passo na tua porte e sinto que me vês
Resguardo qualquer palavras
E vendo o meu nome,
Vendo tudo.

Fecho os olhos e espero que a inquietação
Seja vendida nos saldos,
Vou fechar o meu nome em palavras seladas
E despedir-me assim deste estilo de vida,
Destas pessoas que nunca chegaram a saber quem eu sou
Relembrando sempre quem fui
Destas pessoas passageiras,
Com emoções recatadas
Pelo pensar qualquer coisa
Sentir sem saber

Despeço-me e vou ser alguém.
Eu sou.

Fechei os olhos e adormeci, pleno, num banho de imersão. Fugi para os braços de quem me quer pelo que sou, de quem me quer: fugi para os meus braços.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Hoje

As palavras ameaçaram. Morderam-me os lábios. Respiraram todo o meu respeito. As palavras cansaram-me o tédio. As palavras sorriram-me nos lábios. As palavras acordaram.
Hoje.
Lembrei-me.
Amo-te.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fecha os olhos, és linda.

Quando as palavras não me saem, fecho os olhos, respiro fundo e construo a realidade. Coloco à minha direita  todas as canetas do mundo, à minha esquerda folhas em branco e no centro flores.

Quando eu pinto realidades com os olhos, quando as tuas chamadas caiem no vazio do meu telemóvel, eu lembro-me que te amo. Mensagens vagueiam e eu não as abro. Este amor impossível que nos separa, pela sede de te ver vencer.

Meu amor, fecha os olhos. A melhor coisa que me pode acontecer, é receber uma mensagem tua, é saber que estás bem. Gosto de passear na baixa, gosto de saber que andas a rasgar o mundo com os teus olhos. Dá-me as mãos, vou mostrar-te o mundo: Olha para o globo! Hoje parece quadrado. Estás a ver isto aqui? Esta coisa redonda? O mundo não é nada disto! O mundo é bem mais simples que qualquer representação esférica do Planeta!
Esquece isto. Não há nada de interessante que eu tenha para te dizer sobre o mundo. Descobre-o pelos teus olhos. Eu estou aqui ao teu lado, quero ver-te crescer e descobrir, a criar a realidade.

Gosto de ti.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eu e eu e eu e eu e eu e eu e eu

Viagem imperfeita.
Caminhos vagos.
Vácuo do Inferno.
Caderno.

As tuas palavras
Cegam os meus olhos
Todos os meus desejos
São amores sem fim

De lagos de sorte
Onde a morte
É um início para mim

Acreditei o tempo
Corrompo
Todos os princípios
De todos os precipícios

Salto à primeira chamada
Porque esta é a minha chegada
De mãos no ar
Sem fôlego para respirar

Desejo o que estou para desejar
Vejo o que estou para ver
Digo o que estou para dizer
Lembro-me que é o dia para começar

Os dias assinam o fim
De páginas em branco
De tanto em pouco
Ventos em poupa

Tanques a lavar a roupa
Toda a louça a partir
Como a minha mãe  a parir
De hoje em diante

Eu não vou avante
Carrego políticas
De sorte, estáticas
Morra Dante

A fome é um soluço
E eu aumento o preço
Do meu desejo ardente
Que antevejo a poente

Nunca acreditei em nada
Nunca vesti Prada
Estou assim, entre a lama e o nada
O prazer é coisa nenhuma que é igual a nada

Dias passam afim de mim
Os dias são nada
Eu sou nada
A poesia é nada

Nunca li um poema
Nunca estive num dilema
Nunca recebi um telefonema
Nunca tive eczema

Nunca fui coisa nenhuma
Nunca sofri de coisa alguma
Sou todos os desejos do mundo
Sou todas as paixões reduzidas ao segundo

Vejo, das janelas do meu quarto,
Todo o mundo
Sinto todas as realidades
Tenho todas as idades

Profetizo todos os poemas
Canto todos esquemas
Sou todos os poetas
Vivo todos os dilemas

Repetição do absurdo, eu sou só eu e sou só eu e sou só eu e sou só eu e sou só eu e sou só eu e sou só eu.