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A liberdade dum poeta.

Que as ruas se encham de poetas Poetas que trabalham E poetas sem ofício Porque há que fazer sacrifício! É indigno Um poeta ter que procurar emprego Seja flora intestinal ou brincadeira do destino Que o poeta saia ileso Há quem dite as leis Que para todos os bordéis Hajam papeis Para os magos e Reis Um poeta é poeta E não lhe é digno o desemprego Porque ouro não é dinheiro E se poesia não vale ouro, Jesus Cristo não foi Profeta Que todas as palavras façam greve Para que os humanos sintam de leve Que é grave. Um poeta só escreve Não é digno quererem Que o poeta suje as mãos Já sujas de tinta Enquanto uns dormem Venham para as ruas os poetas Porque é tempo de trabalhar Deixar as rimas Porque há contas a pagar Há que pagar casa E ter emprego Para comer na brasa E dormir em sossego Amigos são amigos E a amizade ainda não vale dinheiro Ainda que sorrisos Não me encham o mealheiro Eu prefiro ter um amigo A viver sozinho Faço pernas ao caminho E...

Um cigarro de prata.

Um cigarro de prata caminhava na boca de um poeta. O poeta ao sair de casa dera de caras com o tédio e a alegria. O poeta caminhava sob a égide de um poema. Tinha oitenta e seis poemas para oferecer ao seu primeiro colo que por estranho que possa parecer viria a ser o último deste. O poeta abraçava a glória por não poder conhecer mais coisa nenhuma. Na primeira parte do dia, o poeta estava acordado para ver o dia nascer. Às sete da manhã deitava-se. Hora em que toda a gente acordava. A rotina nunca fora a sua melhor amiga. No caminho para casa, o poeta encontrara outro poeta e agora tinha companhia na sua poesia. Que por vezes se fundia de duas numa só. O cansaço abraçava o segundo poeta. O segundo poeta era mais impulsivo e louco que o primeiro. Dormia dois dias e passava um inteiro acordado. Não sei se por ser louco ou para fazer render o tempo. Era também narcisista, pensava em si a toda a hora e via-se em todo o lado. Muito egocêntrico, mas feliz assim. O primeiro poeta dormia cinc...

Eu sou a actualidade.

A geração de 1970/1980 é a contemporaneidade, se eles o são, eu sou actualidade. Porque os meus textos, fruto do meu narcisismo, haverão de ter cem anos de solidão e continuar a ser actuais. Morram os poetas, morram os estetas, morram todos que eu sou a actualidade! Eu sou a actualidade. Eu sou actual. Não tenho nada para dizer Só que sou actual. Sou actual e é tudo.

Os palhaços estão em greve.

O circo fechou porque os palhaços fizeram greve O palhaço sentia-se mais leve, Não tinha que carregar o trapézio Do trapezista José Régio A Paloma não tinha que guardar os Leões Do domador Luís de Camões Os Elefantes não tinham que se exibir Porque os circenses decidiram fugir Os poetas apreciaram o circo Do dia vinte e cinco de Novembro Não havia greve de que me lembro O palhaço roubou o arco No Arco do Triunfo Brincavam às revoluções As pessoas eram vulcões Como um tufo Os palhaços fizeram greve E o circo fechou-se Não havia salário O povo proletário Empobreceu e não havia animação Para apresentar no S.João Acabou o dia e a greve de palavras Continuou a fazer-se pelo silêncio As pessoas não conseguiam comunicar A greve acabou.

Palavras surdas.

Dois corpos comunicam em convexo. Um aglomerado de pessoas que se julga Qualquer coisa Ainda que inerte E isso remeta Para substâncias Psicotrópicas Contrariam-se as leis do absurdo Porque as da física já foram todas contrariadas Vão palavras em ventos Secos De qualquer coisa além de mim Poesia que nasce em ciclo De pensamentos Que nunca cheguei a pensar.

O infinito é uma fonte que também seca.

A amargura é iluminada Pelas palavras do Futuro Um porto que parece seguro Até cessar sobre a calçada O Infinito é um verso Esteticamente perverso Que arranha das entranhas De todas as façanhas Para dizer em coro Que as palavras são uma fonte Que também pode secar Onde há namoro Há quem olhe de fronte E quem fique a olhar O infinito é uma glória De vozes embalsamadas Por partituras duma fantasia Em chamas. O infinito engole-me Pela garganta E pede-me para grite o teu nome.

Amor voraz.

Silêncio. As janelas do pensamento fecharam-se. Um poema é cantado de forma épica As leis das estética São nostalgia profética Em amores sem fim Que têm fim  à vista, para mim. Cadência passageira Da intensidade da luminosidade Sentar-se à frente da lareira Com sede de curiosidade Amores sem fim. Voraz é a fome Que escreve o teu nome Sobre o meu E me diz ateu Quando sou crente Em ti, meu amante Amores intensos, Rápidos E delicados Sobre palavras Da tua boca Ditas pelo silêncio da minha.