domingo, 14 de dezembro de 2014

O Engenho

Philip R. estava convicto em reunir esforços para provar a sua teoria. O plano era cria uma máquina que fosse capaz de detectar a verdade. Ele acreditava que as pessoas nunca diziam a verdade e estava disposto a comprová-lo, mesmo sabendo que a verdade é um campo em aberto e que uma verdade também pode ser uma mentira.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre a realidade.

A paranóia recorrente difunde qualquer registo que possa ser considerado real ou próximo disso. Entre reconhecer a realidade e conseguir viver nela vai uma grande distância.

Os pensamentos são complicados
A realidade é um extracto de sódio
Se fosse um frasco de potássio, bebia-a.

Há uma vasta diferença
Entre compreender a realidade
E distingui-la da criação

Vozes chamam-me
E distorcem o caminho
Ainda que as vozes sejam fáceis
De reconhecer
É difícil afastá-las
Ou ignorá-las
Elas chamam-nos de novo

Os pensamentos sobrepostos
Os pensamentos multiplicados
Com vozes que falam todas ao mesmo tempo

A realidade é um pedaço quebrado
E que a pense quem pode
A viva quem consegue.

Há determinadas coisas que só conseguimos
Compreender, se as vivermos
Há muitas coisas que nos parecem distantes
Do palpável porque nunca as vivemos

Nalgumas cabeças
Poderíamos distinguir
Realidade de Paranóia



As vozes parecem chamamentos
As vozes.
As vozes não são a realidade percepcionada
As vozes são outra dimensão da realidade do sujeito
E reconhecê-las, ignorando-as
É tarefa árdua

A realidade é um pedaço distante
A realidade é introspecção
Seguida de momentos de euforia
A realidade é difícil de escrever sem a sentir

As emoções são coisas dos mortais
Os mortais não escrevem, vivem
Podemos separar pessoas de outras pessoas
Podemos compreender a realidade: sempre a nossa
A dos outros não as vivemos
Mesmo quem representa nunca saberá porque não a vive

A realidade depende das vivências,
Da construção do sujeito
Dos inputs e outputs
Inerentes ao sujeito
A realidade é um pedaço excessivamente
Subjectivo

Podemos distinguir realidade comum
De realidade subjectiva
Entre a realidade comum está o mundo tangível
Ainda que este dependa da percepção do sujeito
Podemos distinguir o mundo físico
Do mundo inteligível
Associando a este segundo o mundo criado pelo sujeito
Com a sua organização ou falta dela.

Não creio que determinadas formações mentais sejam melhores que outras
Acredito que há algumas mais saudáveis que outras
Algumas pessoas conseguem integrar-se melhor que outras
Algumas pessoas conseguem viver, silenciado as emoções
Outras não conseguem, são vitimas da guerra interior
Vitimas das vozes, vitimas da desorganização mental

Reconhecer o que podemos denominar de problema
É diferente de ter capacidade para o dominar
Assim se explica que muitas pessoas consigam ver
Mas não saibam viver
Seria mais fácil não conseguir ver
E saber viver

Falando dalguns assuntos
Poderão parecer estranhos a quem não os vive
E compreende-se porque a pessoa para saber o que é,
Tem que viver
Não podemos pedir a um chinês para comer com garfo
Se ele nunca soube o que era um garfo

O mapeamento mental depende da formação do sujeito
O mapeamento mental depende da estruturação mental do sujeito
Que está contida nas vivências e na organização estrutural relativa ao meio em que vive
Se distinguir-mos o meio e o sujeito como duas peças que se moldam
À medida que a realidade avança
Podemos distinguir vários tempos: o tempo do sujeito
E o tempo da realidade
Como se houvesse uma realidade contínua
E a uma realidade que se vive
Onde os tempos dependem sempre de outros sujeitos
Temos o tempo que avança sozinho
E os diversos tempos dos diferentes sujeitos
Que muito raramente se encontram

Os humanos têm que lidar com muitas coisas
E uma pequena peça fora do sítio pode conduzir
A loucuras difíceis de controlar
Pode conduzir e fazer aparecerem vozes na cabeça
Reconhecê-las é o primeiro passo
Ainda que na maior parte dos casos pouco ajude.

Então a realidade não é um ponto
É um processo
De multiplicidade
De múltiplos sujeitos combinatórios
De múltiplas vidas simultâneas
De temos combinados
De raízes quadradas e mapas mentais
De conceitos
E de pensamentos
O sujeito tem que ser o próprio a distinguir e a saber viver na realidade

Compreender a realidade é diferente de saber viver nela, é preciso treino
É preciso adaptação
É preciso capacidade
O tempo combina-se como
Chamas acesas que podem apagar-se com um sopro

Que viva a realidade o sujeito
Que falem os homens sobre outros homens
Como se fossem deuses,
Pena que esses homens que se acham deuses
Nunca o cheguem a ser
Porque estão tão presos no seu próprio mundo
Que não são capazes de compreender
O que é a verdadeira realidade
Compreendem a sua apenas

A realidade é um pedaço distorcido
É um pedaço que pode ou não ser vivido
A realidade é qualquer coisa.
A realidade é diferente de um para todos
Do todo para a parte
Podemos associar a realidade à
Necessidade de a justificar ou a realidade palpável
A realidade é um pedaço apenas
E tem as duas facetas: palpável e não palpável
A realidade do todo, a realidade da parte
E a combinação de todos estes factores
Apresenta-nos a realidade,
Oferece-nos a verdadeira noção de realidade
Poucos conseguirão percepcionar a realidade
Porque é urgente que a vivam para a saberem

Se a viverem não a saberão
Se a souberem não a conseguem viver
É preciso dosear o conhecimento da realidade
Da necessidade de a viver
Podemos encontrar-nos em múltiplas teorias religiosas
Ou filosóficas. Podemos viver com a crença infindável em mundos justificados
É uma questão de opção
Ou podemos conhecer o mundo
E tornar-nos, à medida que vamos conhecendo mais,
Menos capazes de o vivermos
Porque todas as teorias podem estar certas
Todas as teorias podem estar erradas
E surge assim a necessidade de acreditar
Em algo externo ao sujeito singular
Para assegurar a crença comum numa determinada justificação
E vivem assim distantes da realidade
Vivem distantes do mundo real
Porque as crenças asseguram a continuidade de uma vida normal
A ausência de crenças torna o sujeito incapaz de viver a realidade
A realidade presente e a realidade ausente
São distantes e podem ser vividas

A realidade vive da subjectividade
E vice-versa.

A realidade não se deve conhecer, deve viver-se.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Rotina

A criação é hiperbolicamente uma doença que os meus olhos transportam. Escrever sobre o amor é uma doença congénita, escrever sobre qualquer coisa é uma tortura, uma agradável dor.
As horas passam, o relógio está do avesso, o dia anda ao contrário, a rotina desrespeita a rotina, a hora de dormir é a hora que, outrora, seria a de acordar, a hora de acordar é a hora que supostamente deveria ser a de lanchar. O relógio está do avesso, os ponteiros não andam ao contrário, simplesmente não respeitam o normal andamento das coisas. Poderia assumir, de forma incontrolada, que esta é também uma rotina e que dizer que quem o faz não segue uma rotina, é um atentado à palavra rotina, uma vez que, a pessoa apenas está a seguir uma rotina diferente e a desrespeitar a rotina comum.
A normalidade das coisas é um atentado à própria palavra. Creio não haver palavra mais ambígua que normalidade. A normalidade pode ser fazer as coisas bem feitas estando fora da regra, o que a psicologia denomina como "Conduta desviante". O sucesso não está presente na nossa capacidade de corresponder à regra, à norma ou ao comum, o sucesso assume-se pela capacidade que temos de respeitar a nossa própria identidade, fazendo essa parte ou não da "regra", estando baseada em princípios moralmente ou eticamente correctos ou não.
Seria simplista fazer a realidade girar em torno de um Eu que se divide em múltiplos Eu, sem respeitar uma norma ou estabelecer princípios comuns. Apenas creio que não há uma regra melhor que outra ou até mesmo melhor que a ausência de regra. Acho que a necessidade de regras, de corresponder ou não à normalidade, apenas diz respeito ao sujeito e aqui se põe a maior dificuldade, que é a de que o sujeito tenha a capacidade de se conhecer a si próprio ao ponto de saber se deve ou não estar dentro da regra para Ser ele mesmo, para se poder ele próprio se considerar Indivíduo, Sujeito, Pessoa ou Ser.
Viver é fácil, saber viver não é assim tão fácil. Saber viver é apenas saber viver.

Os meus olhos podem até querer fechar, mas, se eu quiser que eles se mantenham abertos, vou continuar a exigir por eles, porque em mim mando eu. Ter consciência dos riscos e arriscar não é loucura, é sabedoria.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Tempo

As margens foram passadas por todos os transeuntes, as fadas voaram tão longe como o solilóquio. As passagens intempestivas são tempestades de quem passa fome, de quem sabe que as palavras estão esfomeadas. Voam bem longe os loucos, voam bem alto os desertos que se descobrem em palavras vãs.
De quem vai sugando os antecessores para alcançar a balança mesmo antes de chegar a pisar o primeiro degrau. De quem sabe bem que vai pisar o primeiro degrau.
Voam bem longe os loucos, beijam bem perto os desertos. Nos lábios carnudos, nos lábios cinzentos de quem dizes que o tempo é um pretexto. O tempo sou eu e és tu.

domingo, 20 de maio de 2012

Eu


Não é preciso ser muito inteligente para se dizer o que quer que seja. É simplesmente útil ser-se ignorante. Porque para quem sabe e sofre, nada precisará de saber, haverá somente de se continuar a sentir inútil e sozinho porque sabe, sabe que nada sabe. Nem sempre quem diz alguma coisa, atrai multidões pela sua capacidade de persuasão, sabe efetivamente alguma coisa. Admiro solenemente quem sabe alguma coisa, pois eu ainda estou à procura das que sei.
Não tenho completa nem incompleta certeza nenhuma, reservo-me somente todas as incertezas do mundo. Se tiver que ser ignorante, que o seja, pois não vou querer saber nada.
Posso até cair no ridículo de mim mesmo, de escrever de forma rude e calão, de parecer abraçar movimentos vanguardistas mas eu serei sempre uma indefinição que parece, por vezes, fácil de definir. Gosto de ouvir os outros a falar, porque os construo e construí-los é escutá-los. Posso ouvi-los, senti-los, tocá-los, virar o odor de todos eles como páginas gastas da mesma história. Posso rever o texto uma centena de vezes até o publicar, mas tenho a certeza absoluta de que aquilo que quis escrever em primeira instância foi o que quis dizer.
A única correção a que procedo é a da sintaxe própria, quando me desrespeito para dizer o que quer que seja, volto atrás e digo-me de novo. Não tenho nenhuns pensamentos políticos, partidários ou poéticos. Tenho-me a mim e é tudo o que eu posso ter.
Poderia justificar a essência das palavras, mas justificá-la seria anular-lhe a essência. Há um poder e esse poder é como um grito mudo,  que sai pelo peito em voz alta, sem nunca chegar a produzir-se som. O som é um fragmento, a continuação da existência.
Poderia saber sorrir e dizer a toda a gente o que sinto, o que penso, o que faço e nunca deixaria de ser eu mesmo. Porque ser eu é cair no ridículo de parecer egocêntrico e falar sobre mim. As palavras têm esta dose horripilante de dissabores que nos sabem bem. Têm esta capacidade de nos fazer sentir o que o poeta sente. Sonhadores daqueles que se alimentam da vida dos poetas para lhes dar continuidade, querendo justificar o que viveu o poeta. Esses! Esses! Esses! Esses não são poetas, são estudantes. Porque a um poeta cabe respeitar os outros poetas, cabe viver com os outros poetas, sem nunca tentar dissecar a vida de um poeta. Dissecar a vida de um poeta é um atentado, um desrespeito maior pelo absoluto da criação. Quem cria, quem sente, quem sabe, quem é poeta, não tenta justificar o que fazem os poetas, vive-o. Não tenta saber o que o antepassado poético viveu, continua-o, sente-o e é tudo. Não destrói poetas por sonhos maiores de querer ser alguma coisa. Quem é poeta, ama os poetas, nãos os dizima, dissecando-os por ser obcecado por eles. Vive com eles.
A um poeta, cabe somente ser poeta.
Quanto a mim, sou apenas eu e nunca fui poeta. Podem não gostar de mim ou amar-me, mas eu sou eu e haverei de continuar a ser fruto de mim mesmo. Sabendo sempre quem sou, aparentado estar perdido em caminhos absurdos e de eterna loucura. Caberão todos os juízos de valor, todas as feridas, todos os amores e dissabores, toda a mágoa, toda a alegria, caberá tudo e no fim de contas o resultado será sempre igual ao produto final: eu mesmo.
As pessoas passam e ondeiam na minha vida, muitas descobrem que pouco mais há a saber e que a ideia do mistério, não passa de uma ideia de mistério, pois não há mistério nenhum. Só me há a mim. A mim, que sou eu mesmo.  
Doses doces de mim. Doses doces de nós. Doses doces de inspiração roubada ao que vou vivendo, uma apropriação descomplexada do património do meu ser. Roubando-me a sintaxe, plagiando-me enquanto ser que existe. Eu sou apenas eu. Haverei de continuar a ser eu.
E para que no final não restem dúvidas, eu sou eu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Oração do Poeta

Gato morre cão
Pássaro morre sapo
Homem morre não
Humano vive não
Poema sabe sim
Poema soube não

A luz da minha aldeia
Sabe a dores de garganta
Os olhos fecham abertos
As aldeias morrem naturais
Os poemas são surreais
Que vivam os Pais

Os pássaros estão loucos
Cantam às quatro da manhã
Ainda não é manhã
Estou louco, bêbedo
E ainda não álcool
Estou embebido pelos meus olhos
Que de lágrimas se cuidam
Em poemas descuidados
De verdades doentes
Este é o poema
Este é o poema

Que se levante o Aleixo
E não parta o queixo
Com as coisas que vos deixo
Passe a Pessoa
E vos deixe à toa
Como o rebanho do Caeiro
Que queria cagar
E não tinha como limpar o cagueiro

O Bocage é o Rei
Pena não ser Gay
O A-berto ia gostar
O Sá-Carneiro a cagar
Com um cu por limpar
Deve ao Fernando
A poesia de quem vai andando

Não escrevo mais nenhum poema
Porque sou uma fonte de inspiração
E para isso liguem a televisão

Já pensei em escrever sobre o leitor ignorante
Mas esse já não iria avante
Porque uns escrevem Rap
Outros vão às festas da FAP
Acabam todos fodidos
Todos vomitados

Irrita-me o leitor ignorante
Porque se acha digno e relevante
Com desconhecimento da criação
Acha que a cultura é como a tesão
Assiste a todos
Como a Simone de vai-a-voar
E o Sartre fica a olhar
Ainda acabo por ser eu que a vou papar

Na minha rua
É como na minha faculdade
Se não cabe na tua
Cabe na dela

Façam orgias
Bebam absinto
Sejam poetas
Preparem as cornetas
Dispam as cuecas
Comam as velhotas
Vão para as docas
Batam as latas
Fodam as letras
Matem as vacas

O único poeta sou eu
E quem achar que não
Que se lembre que o maior poema é o meu
Há quantos anos estava à minha espera»

Se escrevo calão
É para que o leitor burro largue a televisão
E me leia como oração:
Ajoelhe lentamente
E se lembre que sou gente
Que sabe o que diz
Escreve e pensa

Não morro poeta não!

domingo, 13 de maio de 2012

Está tudo bem

Está tudo bem
O pior já passou
A memória é traiçoeira

As pessoas invejam a tua beleza
Invejam o teu sucesso
Está tudo bem, estou aqui

Vou estar aqui, está tudo bem
Vem, vem, vem

É difícil perceberes quem te quer bem,
Estou aqui!

A novidade é interessante
Tens vinte números novos no telemóvel,
Não sabes de quem são

Agarraste duzentas pessoas,
Não as conheces

Eu posso fazer melhor,
Estou aqui

Está tudo bem
Podes ouvir
Não há nada
Eu levo-te à saída
Estou aqui
Está tudo bem

Estou aqui
Fecha os olhos
Está tudo bem
O resto não passou de um sonho mau

Estou aqui