domingo, 20 de maio de 2012

Eu


Não é preciso ser muito inteligente para se dizer o que quer que seja. É simplesmente útil ser-se ignorante. Porque para quem sabe e sofre, nada precisará de saber, haverá somente de se continuar a sentir inútil e sozinho porque sabe, sabe que nada sabe. Nem sempre quem diz alguma coisa, atrai multidões pela sua capacidade de persuasão, sabe efetivamente alguma coisa. Admiro solenemente quem sabe alguma coisa, pois eu ainda estou à procura das que sei.
Não tenho completa nem incompleta certeza nenhuma, reservo-me somente todas as incertezas do mundo. Se tiver que ser ignorante, que o seja, pois não vou querer saber nada.
Posso até cair no ridículo de mim mesmo, de escrever de forma rude e calão, de parecer abraçar movimentos vanguardistas mas eu serei sempre uma indefinição que parece, por vezes, fácil de definir. Gosto de ouvir os outros a falar, porque os construo e construí-los é escutá-los. Posso ouvi-los, senti-los, tocá-los, virar o odor de todos eles como páginas gastas da mesma história. Posso rever o texto uma centena de vezes até o publicar, mas tenho a certeza absoluta de que aquilo que quis escrever em primeira instância foi o que quis dizer.
A única correção a que procedo é a da sintaxe própria, quando me desrespeito para dizer o que quer que seja, volto atrás e digo-me de novo. Não tenho nenhuns pensamentos políticos, partidários ou poéticos. Tenho-me a mim e é tudo o que eu posso ter.
Poderia justificar a essência das palavras, mas justificá-la seria anular-lhe a essência. Há um poder e esse poder é como um grito mudo,  que sai pelo peito em voz alta, sem nunca chegar a produzir-se som. O som é um fragmento, a continuação da existência.
Poderia saber sorrir e dizer a toda a gente o que sinto, o que penso, o que faço e nunca deixaria de ser eu mesmo. Porque ser eu é cair no ridículo de parecer egocêntrico e falar sobre mim. As palavras têm esta dose horripilante de dissabores que nos sabem bem. Têm esta capacidade de nos fazer sentir o que o poeta sente. Sonhadores daqueles que se alimentam da vida dos poetas para lhes dar continuidade, querendo justificar o que viveu o poeta. Esses! Esses! Esses! Esses não são poetas, são estudantes. Porque a um poeta cabe respeitar os outros poetas, cabe viver com os outros poetas, sem nunca tentar dissecar a vida de um poeta. Dissecar a vida de um poeta é um atentado, um desrespeito maior pelo absoluto da criação. Quem cria, quem sente, quem sabe, quem é poeta, não tenta justificar o que fazem os poetas, vive-o. Não tenta saber o que o antepassado poético viveu, continua-o, sente-o e é tudo. Não destrói poetas por sonhos maiores de querer ser alguma coisa. Quem é poeta, ama os poetas, nãos os dizima, dissecando-os por ser obcecado por eles. Vive com eles.
A um poeta, cabe somente ser poeta.
Quanto a mim, sou apenas eu e nunca fui poeta. Podem não gostar de mim ou amar-me, mas eu sou eu e haverei de continuar a ser fruto de mim mesmo. Sabendo sempre quem sou, aparentado estar perdido em caminhos absurdos e de eterna loucura. Caberão todos os juízos de valor, todas as feridas, todos os amores e dissabores, toda a mágoa, toda a alegria, caberá tudo e no fim de contas o resultado será sempre igual ao produto final: eu mesmo.
As pessoas passam e ondeiam na minha vida, muitas descobrem que pouco mais há a saber e que a ideia do mistério, não passa de uma ideia de mistério, pois não há mistério nenhum. Só me há a mim. A mim, que sou eu mesmo.  
Doses doces de mim. Doses doces de nós. Doses doces de inspiração roubada ao que vou vivendo, uma apropriação descomplexada do património do meu ser. Roubando-me a sintaxe, plagiando-me enquanto ser que existe. Eu sou apenas eu. Haverei de continuar a ser eu.
E para que no final não restem dúvidas, eu sou eu.

2 comentários:

  1. A tua prosa poética leva-ma à catarse e eleva-te ao patamar apoteótico dos Grandes. Orgulho em ti, Miguel, orgulho-me de ti! Ainda estou atarantado com este texto, de tão bom, de tão sublime...

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  2. ... e todos somos um eu desdobrado em múltiplas personagens.

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