sexta-feira, 25 de maio de 2012

Rotina

A criação é hiperbolicamente uma doença que os meus olhos transportam. Escrever sobre o amor é uma doença congénita, escrever sobre qualquer coisa é uma tortura, uma agradável dor.
As horas passam, o relógio está do avesso, o dia anda ao contrário, a rotina desrespeita a rotina, a hora de dormir é a hora que, outrora, seria a de acordar, a hora de acordar é a hora que supostamente deveria ser a de lanchar. O relógio está do avesso, os ponteiros não andam ao contrário, simplesmente não respeitam o normal andamento das coisas. Poderia assumir, de forma incontrolada, que esta é também uma rotina e que dizer que quem o faz não segue uma rotina, é um atentado à palavra rotina, uma vez que, a pessoa apenas está a seguir uma rotina diferente e a desrespeitar a rotina comum.
A normalidade das coisas é um atentado à própria palavra. Creio não haver palavra mais ambígua que normalidade. A normalidade pode ser fazer as coisas bem feitas estando fora da regra, o que a psicologia denomina como "Conduta desviante". O sucesso não está presente na nossa capacidade de corresponder à regra, à norma ou ao comum, o sucesso assume-se pela capacidade que temos de respeitar a nossa própria identidade, fazendo essa parte ou não da "regra", estando baseada em princípios moralmente ou eticamente correctos ou não.
Seria simplista fazer a realidade girar em torno de um Eu que se divide em múltiplos Eu, sem respeitar uma norma ou estabelecer princípios comuns. Apenas creio que não há uma regra melhor que outra ou até mesmo melhor que a ausência de regra. Acho que a necessidade de regras, de corresponder ou não à normalidade, apenas diz respeito ao sujeito e aqui se põe a maior dificuldade, que é a de que o sujeito tenha a capacidade de se conhecer a si próprio ao ponto de saber se deve ou não estar dentro da regra para Ser ele mesmo, para se poder ele próprio se considerar Indivíduo, Sujeito, Pessoa ou Ser.
Viver é fácil, saber viver não é assim tão fácil. Saber viver é apenas saber viver.

Os meus olhos podem até querer fechar, mas, se eu quiser que eles se mantenham abertos, vou continuar a exigir por eles, porque em mim mando eu. Ter consciência dos riscos e arriscar não é loucura, é sabedoria.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Tempo

As margens foram passadas por todos os transeuntes, as fadas voaram tão longe como o solilóquio. As passagens intempestivas são tempestades de quem passa fome, de quem sabe que as palavras estão esfomeadas. Voam bem longe os loucos, voam bem alto os desertos que se descobrem em palavras vãs.
De quem vai sugando os antecessores para alcançar a balança mesmo antes de chegar a pisar o primeiro degrau. De quem sabe bem que vai pisar o primeiro degrau.
Voam bem longe os loucos, beijam bem perto os desertos. Nos lábios carnudos, nos lábios cinzentos de quem dizes que o tempo é um pretexto. O tempo sou eu e és tu.

domingo, 20 de maio de 2012

Eu


Não é preciso ser muito inteligente para se dizer o que quer que seja. É simplesmente útil ser-se ignorante. Porque para quem sabe e sofre, nada precisará de saber, haverá somente de se continuar a sentir inútil e sozinho porque sabe, sabe que nada sabe. Nem sempre quem diz alguma coisa, atrai multidões pela sua capacidade de persuasão, sabe efetivamente alguma coisa. Admiro solenemente quem sabe alguma coisa, pois eu ainda estou à procura das que sei.
Não tenho completa nem incompleta certeza nenhuma, reservo-me somente todas as incertezas do mundo. Se tiver que ser ignorante, que o seja, pois não vou querer saber nada.
Posso até cair no ridículo de mim mesmo, de escrever de forma rude e calão, de parecer abraçar movimentos vanguardistas mas eu serei sempre uma indefinição que parece, por vezes, fácil de definir. Gosto de ouvir os outros a falar, porque os construo e construí-los é escutá-los. Posso ouvi-los, senti-los, tocá-los, virar o odor de todos eles como páginas gastas da mesma história. Posso rever o texto uma centena de vezes até o publicar, mas tenho a certeza absoluta de que aquilo que quis escrever em primeira instância foi o que quis dizer.
A única correção a que procedo é a da sintaxe própria, quando me desrespeito para dizer o que quer que seja, volto atrás e digo-me de novo. Não tenho nenhuns pensamentos políticos, partidários ou poéticos. Tenho-me a mim e é tudo o que eu posso ter.
Poderia justificar a essência das palavras, mas justificá-la seria anular-lhe a essência. Há um poder e esse poder é como um grito mudo,  que sai pelo peito em voz alta, sem nunca chegar a produzir-se som. O som é um fragmento, a continuação da existência.
Poderia saber sorrir e dizer a toda a gente o que sinto, o que penso, o que faço e nunca deixaria de ser eu mesmo. Porque ser eu é cair no ridículo de parecer egocêntrico e falar sobre mim. As palavras têm esta dose horripilante de dissabores que nos sabem bem. Têm esta capacidade de nos fazer sentir o que o poeta sente. Sonhadores daqueles que se alimentam da vida dos poetas para lhes dar continuidade, querendo justificar o que viveu o poeta. Esses! Esses! Esses! Esses não são poetas, são estudantes. Porque a um poeta cabe respeitar os outros poetas, cabe viver com os outros poetas, sem nunca tentar dissecar a vida de um poeta. Dissecar a vida de um poeta é um atentado, um desrespeito maior pelo absoluto da criação. Quem cria, quem sente, quem sabe, quem é poeta, não tenta justificar o que fazem os poetas, vive-o. Não tenta saber o que o antepassado poético viveu, continua-o, sente-o e é tudo. Não destrói poetas por sonhos maiores de querer ser alguma coisa. Quem é poeta, ama os poetas, nãos os dizima, dissecando-os por ser obcecado por eles. Vive com eles.
A um poeta, cabe somente ser poeta.
Quanto a mim, sou apenas eu e nunca fui poeta. Podem não gostar de mim ou amar-me, mas eu sou eu e haverei de continuar a ser fruto de mim mesmo. Sabendo sempre quem sou, aparentado estar perdido em caminhos absurdos e de eterna loucura. Caberão todos os juízos de valor, todas as feridas, todos os amores e dissabores, toda a mágoa, toda a alegria, caberá tudo e no fim de contas o resultado será sempre igual ao produto final: eu mesmo.
As pessoas passam e ondeiam na minha vida, muitas descobrem que pouco mais há a saber e que a ideia do mistério, não passa de uma ideia de mistério, pois não há mistério nenhum. Só me há a mim. A mim, que sou eu mesmo.  
Doses doces de mim. Doses doces de nós. Doses doces de inspiração roubada ao que vou vivendo, uma apropriação descomplexada do património do meu ser. Roubando-me a sintaxe, plagiando-me enquanto ser que existe. Eu sou apenas eu. Haverei de continuar a ser eu.
E para que no final não restem dúvidas, eu sou eu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Oração do Poeta

Gato morre cão
Pássaro morre sapo
Homem morre não
Humano vive não
Poema sabe sim
Poema soube não

A luz da minha aldeia
Sabe a dores de garganta
Os olhos fecham abertos
As aldeias morrem naturais
Os poemas são surreais
Que vivam os Pais

Os pássaros estão loucos
Cantam às quatro da manhã
Ainda não é manhã
Estou louco, bêbedo
E ainda não álcool
Estou embebido pelos meus olhos
Que de lágrimas se cuidam
Em poemas descuidados
De verdades doentes
Este é o poema
Este é o poema

Que se levante o Aleixo
E não parta o queixo
Com as coisas que vos deixo
Passe a Pessoa
E vos deixe à toa
Como o rebanho do Caeiro
Que queria cagar
E não tinha como limpar o cagueiro

O Bocage é o Rei
Pena não ser Gay
O A-berto ia gostar
O Sá-Carneiro a cagar
Com um cu por limpar
Deve ao Fernando
A poesia de quem vai andando

Não escrevo mais nenhum poema
Porque sou uma fonte de inspiração
E para isso liguem a televisão

Já pensei em escrever sobre o leitor ignorante
Mas esse já não iria avante
Porque uns escrevem Rap
Outros vão às festas da FAP
Acabam todos fodidos
Todos vomitados

Irrita-me o leitor ignorante
Porque se acha digno e relevante
Com desconhecimento da criação
Acha que a cultura é como a tesão
Assiste a todos
Como a Simone de vai-a-voar
E o Sartre fica a olhar
Ainda acabo por ser eu que a vou papar

Na minha rua
É como na minha faculdade
Se não cabe na tua
Cabe na dela

Façam orgias
Bebam absinto
Sejam poetas
Preparem as cornetas
Dispam as cuecas
Comam as velhotas
Vão para as docas
Batam as latas
Fodam as letras
Matem as vacas

O único poeta sou eu
E quem achar que não
Que se lembre que o maior poema é o meu
Há quantos anos estava à minha espera»

Se escrevo calão
É para que o leitor burro largue a televisão
E me leia como oração:
Ajoelhe lentamente
E se lembre que sou gente
Que sabe o que diz
Escreve e pensa

Não morro poeta não!

domingo, 13 de maio de 2012

Está tudo bem

Está tudo bem
O pior já passou
A memória é traiçoeira

As pessoas invejam a tua beleza
Invejam o teu sucesso
Está tudo bem, estou aqui

Vou estar aqui, está tudo bem
Vem, vem, vem

É difícil perceberes quem te quer bem,
Estou aqui!

A novidade é interessante
Tens vinte números novos no telemóvel,
Não sabes de quem são

Agarraste duzentas pessoas,
Não as conheces

Eu posso fazer melhor,
Estou aqui

Está tudo bem
Podes ouvir
Não há nada
Eu levo-te à saída
Estou aqui
Está tudo bem

Estou aqui
Fecha os olhos
Está tudo bem
O resto não passou de um sonho mau

Estou aqui

Paz.

As pessoas estão na rua
As pessoas estão aos saltos

A noite entra pela janela
Do meu quarto,
As memórias do passado começam a surgir
Intempestivamente;

Cores, muitas cores
Pessoas, muitas pessoas
Muitas pessoas
Muitas pessoas

A noite corre demasiado depressa
A única lembrança é a do acordar

Está bom tempo
É madrugada
Os pássaros às cinco da manhã começam a encantar

Restam as memórias
Os momentos para contar histórias

As pessoas são bonitas
Apetece-me abraçar toda a gente



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Solidão.

As pessoas passam despercebidas
Na rua ninguém sabe quem são
As pessoas estão carentes
As pessoas eram contentes

Sozinhas, livres, leves, vazias,
Sozinhas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Abismo

Ao longe uma parede, um tiro certeiro que vai em direcção ao escuro, o vago é agora a certeza absoluta de um espaço melhor para se viver.

Uma bailarina caminha em direcção a um espelho. O espelho é banhado a ouro, um espelho é diferente dos outros espelhos.
O espelho está a cerca de trinta centímetros. A bailarina desmaia. Fica a sensação de que o espelho não sabe o que fazer. Sobressaltado, decide atirar-se para cima da bailarina e desmaiar também.

Descrição holística  

A bailarina tinha dezassete anos de idade, duas irmãs, vivia nos arredores de Veneza, trabalhava durante o dia numa Academia, era boa aluna, os Pais haviam falecido num acidente de carro, morava com os tios, gostava de flores, dançava para se esquecer do desgosto de ter perdido dos pais.
A mãe tinha sido bailarina profissional. Para ter a mãe presente na vida dela, usava um colar de pérolas que a bisavó ofereceu à mãe antes de morrer. A mãe gostava de cavalos, de música clássica e de balé, nos tempos livres pintava quadros, ouvia Vivaldi, dançava balé. 

Eram seis da manhã, o sol começava a abrir brechas luminosas nas ranhuras da janela do quarto de Elisa, Sofia e Raquel.

(...)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dispersão

Estou doente de amores
Estou louco e ciente
Estou consciente
Estou cheio de lamurias e louvores

A espada penetra-me a face esquerda do coração
O tempo é linear
O espaço é ar
Fecho um poema ao pensar

Estou louco e doente de amores
Pela consciência de mim mesmo
Que tenho ao saber quem sou
Estou eu, estou tu, estou nada
Estou tudo, tudo e no fim não sou nada

Estou eu, estás tu, nós e nunca foi mais nada.