terça-feira, 27 de setembro de 2011

Acorda, Maria Alice.

Ligo o telemóvel. Espero uma mensagem tua. Tu consomes a tua, eu viajo na minha vida.
Espero que acordes, eu adormeço no leito do absinto da minha mente. A arte e a falta de lucidez andam de mãos dadas.
O consumo de substâncias psicotrópicas anda de mãos dadas com a criatividade, artistas alimentam o seu ego com substâncias que potenciam a criatividade, depois da viagem está o vazio.

Maria, hoje está calor. Maria adormece, as insónias tomam conta de ti porque tu não deixas a tua droga. Maria tu não sabes o que queres, Maria tu só queres jogar. Maria a tua irmã já deu uma chinesa em cocaína. Maria tu és igual à tua irmã. Maria tu consomes a vida dos outros. Maria a tua vida é mais confusa que os outros.
Maria, tu crias personagens nos outros, como se eles fossem o teu espelho e fazes com que acreditem na tua história. Maria eu para ti sofri de esquizofrenia quando a minha única doença era amar-te, sem cura à vista.

Maria, hoje está calor.
Não te preocupes Maria Alice, és só uma obra de arte.

Maria Alice não mordas os lábios no desejo ardente do teu professor de filosofia. Maria vamos por partes, eu sou uma história, tu és o autor. Deste-me vida. Agora eu sou só aquilo que tu sempre quiseste que eu fosse, um virar de páginas. Não te prendas neste capítulo.
Não te prendas neste livro.

É só um novo dia. Nunca soubeste o que querias, porque pensas que viver como vives é ser artista. E que artista é sinónimo de boémia. Eu sou a arte, tu a artista. Vamos brincar mais uma vez ao teu jogo favorito. Ao jogo do finge que estou aqui e tu não me estás a ver.
Vamos jogar ao jogo do quero-te porque não te tenho e quando te tenho não te quero, porque te tenho.
Vamos brincar, simular a tua crença profunda de que eu sou Esquizofrénico e vivo na realidade que criaste para mim. Com amigos teus a comerem-te com os olhos à minha frente, tu a desejares o desejo deles. Enrolando-me na tua história, diagnosticando-me Transtorno Obsessivo Compulsivo, quando a minha única Obsessão é Amar-te. Com corpos a fecundarem-se pelo olhar à minha frente. E foi apenas uma neurose porque assim o quiseste.

Vingança. Vingar é uma coisa que eu não quero. Minto-te, Maria Alice, tu jogaste fora as minhas sandálias quando eu já andava descalço lá por casa. A única coisa que te trouxe foram uns óculos de sol, para que consigas assistir às aulas em Paz. Maria, eu estou aqui. A vantagem de abraçar a loucura é que a lucidez chega-te mais perto.

Quando viveste uma vida que nunca foi tua, por acreditares que era a tua. Quiseste ser o Superego que tu não tens. E fizeste de mim o Ser mais arrependido do planeta. Maria Alice eu estou na tua aventura. Maria Alice eu sou um capítulo da tua história, que tu tão simplesmente crias.

Maria Alice, eu sou genial, tu és o génio. Maria Alice eu nunca minto. Maria Alice o teu jogo já acabou mas a história não quer acabar, a história que me deste ganhou vida.

Maria Alice tenho raiva de ti. Maria Alice, esqueceste-te de me avisar que tu não eras nada do que dizias ser. Maria Alice, tudo o que previ para ti está a acontecer. Maria Alice eu sou a tua história, tu escreves.

Maria Alice custa amar-me. Maria Alice. Dorme. Tu não acreditas em nada do que acreditas. Tu não sabes nada do que eu sei.

Maria Alice, quando te mostrei o mundo, esqueci-me de deixar um papel assinado com as coordenadas que deves ter cuidado ao pisar. Nunca te dei cocaína para as mãos, porque eu sou a mais bela cocaína, a que tu podes consumir e te eleva o ego. Sou a cocaína que vicia e não te traz consequências físicas.

Maria Alice, tu és uma artista. Tu és culta. A forma como usas a tua cultura é uma liberdade tua. O único problema é que acreditas. Ou melhor, não acreditas em nada do que finges acreditar.

A paz atormenta-te a alma. Porque tu lhe queres dar ânima. Sonhas com Platão, com os boxeres do teu professor de filosofia a desfazerem-se na tua boca. Enquanto te recita os poemas que estudou de Fernando Pessoa na Faculdade de Letras. O teu professor, dizias tu, tinha uma cadeira sobre Fernando Pessoa. O teu professor é um génio, é uma pena não ter nascido no mesmo dia que eu. Para podermos partilhar o mesmo espaço de criação.

O teu professor de Filosofia, é um exemplo, consome o pólen dos alunos. Já que a sociedade é de consumistas, que tudo se consuma então.
Maria Alice, desculpa a ironia. Mas eu não sei jogar o teu jogo. Não sei jogar ao "Busca".

Maria Alice, eu morri antes de nascer.

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