sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Amar narciso.

Tiras a roupa, vais tomar banho, vestes o pijama, deitas-te na cama com o portátil, entras no facebook, olhas para o telemóvel à espera duma mensagem, decides ligar à tua melhor amiga.
Preenches assim o vazio e o tédio da tua mente. Esperas que o tempo passe, que o sono comece a chegar porque amanhã tens um novo dia à porta. Fechas os olhos, abres a porta do avião, entras e começas sonhar, ele leva-te onde tu queres ir. Esperas que os outros se lembrem de ti, mas tu não te lembras deles, queres que receber sinais de vida, mas não os dás.
Começa a dar a tua série favorita na televisão que tinhas, em segundo plano, por trás do portátil, fechas o portátil e tentas arranjar uma desculpa, para desligar de forma elegante o telemóvel à tua melhor amiga: "Sim, o João é sempre o mesmo!"; "Ele fez-te isso?", "Olha, tenho que ir falar com a minha irmã... ligo-te já". E, como é óbvio, não voltas a ligar.
Divagas sobre o amor, divagas sobre tudo e quando a tua série entra no auge, quando inesperadamente, vês uma cena quente de sexo, com troca de afecto, logo começas a tocar-te e a desejar que ele, que não sabes quem, esteja aí deitado na tua cama, fazer amor com ele e adormecer agarrada no abraço dele.
Começas a pensar outra vez nele e visualizas o gajo mais bonito que conheces em cima de ti, logo atinges o orgasmo num ápice. Adormeces banhada em lágrimas porque é mais uma noite que adormeces sozinha. Não recebes uma única chamadas, um único sinal de vida. Adoravas que te ligassem antes de dormir, todas as noites e te dissessem que és linda e que te amam.
Cedo compreendeste que o amor é coisa de filmes e foste ficando apaixonada por realizadores de cinema e tardes na Baixa a ler os teus livros. Ficas deprimida porque ninguém te ama, incapaz de compreender que isso acontece porque tu não amas ninguém, só te amas a ti. És vítima do teu narcisismo, uma coisa que és incapaz de abandonar.
Tu amas-te mais que a qualquer outra coisa que possas vir a ter. Vês o amor como uma posse desregrada e foges de quem te possa amar, porque te amas a ti e a ideia que guardas da liberdade.
Tu cansas-te de achar que podes controlar tudo, mas nem por isso deixas de acreditar e controlar.
Mais um dia em que partes para escola, no mesmo sítio, à mesma hora, na mesma paragem de autocarro, com as mesmas pessoas à espera do autocarro, sais, entras no metro e já nem aprecias o que está à tua volta. É mecânico em ti. Entras no metro, sais, acendes um cigarro e vais em direcção ao colégio. Os teus amigos estão à tua espera e começam a enrolar e a queimar as gramas que compraram aos tios. Passam o dia a rir-se, bebem cerveja. É isto todos os dias. Esperas que chegue a Sexta-feira, para poderes sair e olhar e embebedar-te, pões-te mais bonita que nos outros dias, para que as pessoas reparem em ti. Consegues sempre o que queres, o rapaz que queres, o mais bonito de todos. És tu que os escolhes, mas deixas que pensem que foram eles que te escolheram a ti, isso deixa-os com a sensação que são machos, o que te atrai. Brincas com isso e jogas o teu jogo favorito, a sedução. Acabam sempre da mesma maneira, aos beijos, o sexo, a adormecer e no dia seguinte voltas a sentir um vazio dentro de ti.
O fim-de-semana passa e tu vais estudando para te conseguires convencer que vais ser alguma coisa na vida.
Quando acordas, dás por ti na sala de aula, e é isto todos os dias. Investes todo o tempo em ti. E sentes sempre um vazio que não compreendes. Tentas chamar à atenção e pensas nas pessoas que te podiam amar, mas nem sequer perdes tempo a reflectir sobre as que tu amas. Porque o teu narcisismo deixa-te incapaz de amar alguém, queres alguém que colabore contigo e te ajude a alcançar o teu ego inatingível.
Logo voltas a adormecer, desta vez agarrada à tua irmã e com ela a contar-te os casos dela. Tendem a ser cópia uma da outra, mas gostam de o ser. Vivem entre o tédio e o auge da felicidade. O único que amor que conhecem para além do amor próprio é o amor de irmão. Onde sentem que eram capaz de dar a vida uma pela outra e voltam assim a acabar mais uma noite agarradas.
É só mais um dia, pensas tu. Logo o tempo passa, o tempo cura tudo.

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