quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Como matar alguém:


Deixar o corpo rolar sobre a valeta e ir embora, começa assim. Decidir ligar para o diabo, perguntar-lhe se está bom e pedir-lhe ajuda. Depois de lhe ligar, esperar uns segundos. E está-se pronto.

Imaginei o mundo e matei-te naquele momento por não ser capaz de te amar nem mais um segundo. O amor é coisa de poetas, pensei eu. Senti-me um imbecil por ser capaz de amar tanto em tão pouco tempo, cedo me apercebi que isso só acontecia porque sempre te quis matar. Imaginei contigo como seria morrer com os meus pulsos cortados sobre os teus, como seria espetar a mesma faca em mim e em ti e esperar a morte. Uma espécie de suicídio colectivo em que a morte é a mais bela forma de amar e jurar-te a eternidade. As minhas facas são os teus olhos, eles cortam-me aos pedaços e entregam-me no talho duas horas depois para ser comercializado. Eu mato-te todos os dias e dissolvo-te em poesia que é servida uns meses depois em livros que as pessoas usam para se distrair.

Quando te conheci fiz uma jura de sangue e prometi amar-te para sempre, como tal... tive que te matar quando começaste a descobrir outras pessoas, para que não te passar a odiar. Não gostavas que eu te tratasse desta forma nem que tornasse a morte tão próxima, fazia-te sentir que eu era assustador e tinhas medo de mim. Eu matei-te no preciso momento em que te disse "Amo-te". Uma bala entrou no teu coração, nunca tinhas sido amada por ninguém e isso era como matar-te, embora não soubesses o que era morrer porque sempre estiveste viva, embora fosses morrendo. 

A tua música era aquela chata que sabe a pastilha-elástica de mentol quando se descobre que é feita de petróleo, é consumida por todos embora no momento em que a estamos a mascar, achemos que só nós o fazemos. A moral naquele momento é um absurdo e o impossível categórico, não há ética que faça falta. A falta de regras é a constante para poderes sobreviver, até ao dia em que tu morres.

Eu optei por matar-te antes de morrer e para isso, decidi lamber os lábios, beijar-te com a língua e dizer-te: Eu amo-te mais que a vida.

Virei costas, fui-me embora e no momento a seguir, tu morreste de amores por mim.
Eu nunca mais voltei porque morri também. Quem eu fui naquele momento, morreu ali e nunca mais te voltei a amar, amei-te naquele momento e tu morreste, eu matei-te.


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