quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sou uma parte tua porque te amo.

O surrealismo dá forma ao pensamento!

 7 de Dezembro de 2011
Bom dia Amélie,
 
São precisos dois momentos para exprimir um coração-dinamite: 1. a emoção; 2. a catarse. Emocionar os olhos com o coração, sentindo o toque ao de leve na brisa de um cabelo solto ao vento; libertar o que se sente para se poder voltar a sentir de novo.
Eu só pedia que um dia pudesse ser dois, viver dos confins da minha memória e realizar profecias, nunca pedi nada a não ser que o meu coração pudesse não ser dinamite. Nunca acreditei em nada, nunca li coisa nenhuma, nunca me quis exprimir como poeta nenhum. Nunca quis ser fatalista ou depressivo, nunca quis fugir. Só sei que te amo. Mas não sei porque te amo. Sei que me quero só a mim. E que prefiro a solidão do meu quarto à companhia do teu.
Sempre quis ser Lewis Carroll para poder viajar no País das maravilhas alucinado, apaixonado e vivo. Sou apenas eu. A vida é um cigarro pousado no cinzeiro e que é consumido pelo ar. A combustão da vida é feita pela sequência de imagens. Logo tudo acalma, tudo acaba. Adivinha-se um fim, para o que começou, breve e letárgico. As palavras amordaçam-me e secam. Eu só pedi para que o tempo conseguisse parar naquele exacto momento em que o teu beijo foi um dos meus. Cai solto no teu abraço e vi o meu fim. As minhas últimas palavras foram proferidas pela tua boca.

Eu queria que tu fosses eu, para poder ser tu. Eu queria estar em ti, roubar-te esta parte minha que tu tens. Eu só pedi para que tu conseguisses ser paciente. Eu virei as páginas do meu caderno e lá estavas tu mais uma vez. Será que me podes chegar o cinzeiro? Não queria sujar o cama com cinzas. Gostava de saber a melhor maneira para dizer que te amo sem ter que dizer que te amo. A gramática limita a forma de expressão. A poesia nunca se pode reger pela gramática. Sabes qual é o meu escritor favorito? És tu! Sabes porquê? Porque me escreves. Fazes com que o meu caderno me escreva. Nunca pensei em inserir uma ideia ou tentar formatar uma mente, ser qualquer coisa sem ser coisa nenhuma. Só desejei habitar a realidade, levantar-me todas as manhãs como se fosse o meu primeiro dia, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, fumar um cigarro, pegar no carro e ir escrever-te para o Vitória. Ambiciono mais que o que devo, se é que na realidade devo alguma coisa. Tenho a sensação que devo continuar a escrever o Romance e Ensaio Hospício Global e concorrer com ele ao Prémio Vergílio Ferreira. Tenho a sensação que podias estar todos os dias em minha casa, para vestires a minha camisola. Para me abraçares quando o cansaço se sobrepuser à necessidade de trabalhar. Podias ajudar-me a escolher o registo em que mais me gostas de ver a escrever. Para eu continuar a escrever. Podes ler todas as manhãs o meu e-mail? Para veres se a editora já mandou a capa do livro? Eu tenho demasiadas aspirações, as aspirações nunca são em demasia. Quero ter um lugar na literatura europeia, ser conhecido por escrever em registos completamente diferentes e ser extremamente versátil. Se um dia me compararem com Fernando Pessoa na Poesia e com Manuel Arouca no Argumento, dou-te um abraço do tamanho do mundo. Já reparaste neste registo estranho de diário? Como poderei eu ter passado de poesia para uma página de diário? Vou fumar mais um cigarro. Quem te pareço hoje a escrever?

Gostava que o tempo fosse uma partitura mais pequena e menos densa. Gostava de poder consumir o teu tempo com o meu. As minhas palavras já não chegam para as tuas. Sou só tu, sem na verdade ser coisa nenhuma.

Um beijo,
Autor desconhecido.

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